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Minha Casa, Minha Rua


Durante muitos anos, contamos histórias na ONG Minha Rua, Minha Casa, que acolhia diariamente pessoas em situação de rua

Uma vez, no mês de dezembro, fui ali contar histórias sozinha. Isso às vezes acontecia, porque era um local muito difícil para várias pessoas do grupo. Ficava nos baixos do Viaduto do Glicério.

 

Eu comparecia assim mesmo, era um lugar em que eu considerava nossa presença muito importante.
Quando cheguei, havia pouca gente. Funcionava assim: a gente ia passando pelas pessoas que estavam sentadas, espalhadas por ali, convidando-as para ouvir histórias. A maioria eram homens, alguns embriagados (mas não muito, porque nesse caso eram barrados na entrada). Havia muita resistência , mas sempre havia quem aceitasse o convite.

 

Como estávamos perto do Natal, eu havia preparado histórias divertidas para não despertar lembranças da festa.
Estou eu lá, contando minha história engraçada para meu único ouvinte, quando ele começa a chorar.

 

Por um momento, fiquei sem ação, mas então resolvi parar de contar a história e pedi desculpas por tê-lo feito chorar. Forçando um sorriso, ele disse:
– Não, por favor, continue, estou gostando, só me deixe chorar.
Continuei a história. Ele fazia sinais com a cabeça de que estava gostando, e as lágrimas escorrendo pelo rosto...

Voluntária: Maria Lucia Dias de Barros

Quando tudo começou

No milênio passado, em 1998, ouvi falar pela primeira vez da existência de um grupo de voluntários que ia a instituições carentes para contar histórias.

Ora, direis, contar histórias... Pessoas carentes precisam de alimento, cuidado médico, roupa, tanta coisa... Ouvir histórias, ouvir estrelas... Qual o benefício que isso poderia trazer?

Passaram-se alguns meses, e eu sempre pensava no assunto.  Numa segunda-feira à noite fui à reunião na Federação Israelita Paulista, para saber mais. 

Encontrei seis mulheres interessantes e idealistas, que afirmavam que ouvir histórias aumentava a autoestima e a imaginação, e não só para crianças.

Nunca mais deixei de ir às reuniões. Desde o começo me senti acolhida, cada encontro era um aprendizado. Comecei a procurar histórias para contar, visitei as instituições, contei, gostei.

E lá se vão mais de 20 anos! O grupo cresceu, algumas pessoas queridas saíram, outras tantas entraram e meu objetivo secreto é que cada uma sinta-se acolhida desde o princípio, como eu me senti.

Atendemos varias instituições, algumas nossas parceiras antigas, outras novatas. 

Com o crescimento, sentimos necessidade de criarmos regras e definirmos funções - hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás - para que o grupo tenha estrutura e possa seguir em frente, espalhando momentos de alegria por onde for.

A pandemia também nos atingiu e tentamos nos adequar. Nas poucas instituições que possuíam acesso para contações de histórias via zoom continuamos nossas atividades, e agora estamos retornando aos encontros presenciais.

 

Federação Israelita do Estado de São Paulo, Centro de Cultura Judaica, Unibes (União Brasileiro-Israelita do Bem-Estar Social) Cultural – interessante notar que o Era Uma Vez nasceu e cresceu em ambiente judaico, mesmo que a maioria dos integrantes não seja da comunidade. 

Para fazer parte do grupo só precisa ser (mentch) gente: gente que cuida e se ocupa de gente, gente que acredita no poder transformador das palavras para amenizar o cotidiano difícil, gente que atua para fazer justiça social doando atenção e um pouco do seu tempo.

 

Voluntária: Ita Liberman

Boca do Céu

Boca do Céu é o Encontro Internacional de Contadores de Histórias. Imagine uma semana com contadores profissionais vindos de todas as partes: Canadá, Chile, Espanha, Tunísia, Inglaterra, França, Costa do Marfim, Estados Unidos, Peru e muito mais, além dos nacionais, de várias regiões do Brasil. 

Imagine muitos interessados em ouvir estes contadores, todos reunidos num espaço bacana em imersão total, com atividades durante dias inteiros. São oficinas, palestras, apresentações... Os últimos foram na Oficina Cultural Oswald de Andrade, no Bom Retiro, SP.

Enfim, existe um mundo paralelo de contadores de histórias e às vezes a gente vai pra lá...

Voluntária: Ita Liberman

Vida longa ao Era Uma Vez

Um dia, Teresita Rubinsteinn , uma das fundadoras do grupo, soube que a Secretaria de Educação do Governo do Estado apresentou um projeto para capacitar professores e cuidadores de creches da rede pública na arte de contar histórias. Nome do projeto: Era uma vez, nosso nome.

Ela entrou em contato com o encarregado, explicou que tínhamos esse conhecimento e estávamos aptos a ministrar estas capacitações. Fomos muito bem recebidas no Palácio dos Bandeirantes pela primeira dama na época, Sra Lú Alckmin e pelo secretário de educação, Gabriel Chalita. Firmamos uma parceria e realizamos várias oficinas no espaço do Fundo Social de Solidariedade no Parque da Água Branca.

Estas oficinas de capacitação foram um sucesso. Bronia Liebesny, professora da PUC e com enorme experiência e didática, ajudou muito na elaboração das dinâmicas utilizadas.

Os pedidos para capacitações se multiplicaram: realizamos em instituições mais afastadas, onde não poderíamos atender regularmente e também naquelas onde já íamos, para que todos pudessem aprender a contar histórias. 

Quando a Federação Israelita decidiu não mais abrigar os grupos voluntários, o Era Uma Vez foi adotado pelo Centro de Cultura Judaica, com a mesma cortesia e atenção que recebíamos na primeira casa. Passamos a nos reunir neste belo espaço da Rua Oscar Freire, 2500, onde estamos até hoje, agora sob a direção da Unibes Cultural. 

Em contrapartida, oferecemos capacitações para o público da Unibes.  As inscrições se esgotam em poucos dias, muita procura, sala lotada e, principalmente, participantes satisfeitos.

De vez em quando também precisamos nos recarregar, ver, ouvir, beber de fontes novas.

Pelo menos uma vez por ano contratamos um profissional e passamos por uma reciclagem. Já estiveram conosco os mais renomados contadores: Regina Machado, Giuliano Tierno, Andi Rubinstein, As Meninas do Conto, Clarice Schcolnic, Kiara Terra, Gislaine Matos, Giba Pedrosa, e certamente esqueci alguns. Enfim, ouvimos muita gente boa, tivemos oportunidade de observar estilos diversos e pescar dicas preciosas, inspiradoras, sempre encontros do bem.

Voluntária: Ita Liberman

Festa no Era Uma Vez

Uma delícia são os nossos jantares de fim-de-ano. Somos festeiras (desculpe Wilton, só por você somos festeiros), adoramos nos encontrar fora da hora de trabalho também. Se bem que não vejo as reuniões quinzenais como trabalho há muito tempo. Pra mim é um prazer.

Tenho uma teoria já confirmada: quem quer fazer trabalho voluntário contando histórias para pessoas carentes só pode ser do bem. E é assim cada integrante do Era uma vez - gente do bem - voluntário profissional comprometido e atuante.

Em uma de nossas reuniões chegaram Cira, Isac e sua filha Thema, que não fazia parte do grupo. Ela trazia uma bandeja e disse: Hoje é o aniversário da Cira e ela não queria deixar de vir a esta reunião, então eu vim e trouxe o bolo pra ficar com ela. 

Cira e Isac, Teresita e Tobias: dois maridos que começaram devagarzinho a frequentar os encontros e se revelaram contadores fantásticos.

Janina: ela tinha um forte sotaque estrangeiro, não falava bem português, admitia que não gostava de contar histórias, não tinha o menor jeito, mas... Gostava tanto do grupo que queria estar nele e tornou-se nossa secretária. 

Voluntária: Ita Liberman

Quem viu um fantasma?

Na época de Halloween, Dia da Bruxas, sempre levo minha fantasia de fantasma na contação de histórias. As crianças adoram!

A entrada do fantasma é triunfal! Ele chega de surpresa, arranca gritinhos dos pequenos e deixa todo mundo animado.

Um dia, durante uma contação em uma das instituições, no Halloween, o “fantasma” estava dentro da minha bolsa, louco para a sair e participar da festa. As crianças estavam muito agitadas.

Depois de contar as histórias, dei uma saidinha da sala, coloquei a fantasia, respirei fundo, abri a porta com tudo e já ia dizendo o tradicional BUUUUUU, quando notei, através dos furinhos do lençol, que as crianças estavam fazendo tanta bagunça, mas tanta bagunça, que ninguém reparou no fantasma. Só mesmo as outras contadoras, que, em meio a tamanha confusão, já estavam mesmo assustadas, com aquela cara de quem viu um fantasma.

Bom, não foi desta vez.... mas as aventuras do fantasma foram tantas, que até criei uma história para as contações de Halloween.

E todo mês de outubro o fantasma não vê a hora de sair do armário! Mas tomara que não esteja muita bagunça, né?  

Voluntária: Fernanda Sodré Moreno

Contando histórias

Vamos sempre contar histórias em dupla o que dá mais segurança para cada um e mais importância ao ato.

Não importa se é na creche com crianças pequenas, em instituições de idosos, no abrigo para moradores de rua, no posto de saúde - nos apresentamos com a camiseta passada, com a história ensaiada, na hora marcada e a alma lavada.

Atendendo a uma solicitação especial, fomos a atração em um chá da tarde para terceira idade. Quando terminamos, fomos convidadas a nos sentar e tomar o lanche entre os participantes. Uma senhora muito simpática me pediu:

“Agora conta pra mim, eu não ouvi uma palavra do que vocês disseram!” Pensei: Será que alguém ouviu?

 

Em uma outra instituição que atendia crianças com problemas cardiológicos, havia um menino de 5/6 anos com severa deformação facial. Ele ficou lá alguns meses, o suficiente para me conhecer. Uma vez, contei uma história e, como faço habitualmente, perguntei se alguém queria ouvir uma história especial. Ele se levantou, foi até uma pequena estante de livros e pegou O Patinho Feio. 

Eu havia contado esta história anteriormente e meu pequeno ouvinte havia se identificado com ela.

 

Tempos atrás, Tani e eu fizemos a primeira visita a uma instituição que atende pessoas limítrofes. Uma moça me falou: “Não gosto de você, gosto da outra que vinha aqui”!

Não é exatamente o que a gente espera ouvir, mas consegui responder: “Me dá uma chance, quem sabe você gosta”. Contamos, cantamos, os integrantes participaram e a moça também. Hoje a moça é minha amiga.

 

O prazer que sinto ao contar histórias e perceber a atenção e interesse das crianças, a alegria de ser recebida com beijos e abraços, de ouvir “conta mais uma, tia!”, de provocar um idoso calado e fazê-lo cantar é tão gratificante, sinto que de uma forma muito sutil consegui fazer a diferença. 

Só quem provou sabe!

Voluntária: Ita Liberman

O Encantamento

Um dia fui com uma colega contar histórias no Instituto Rogacionista e fomos informadas de que as crianças estariam na sala de música nos esperando. Quando entramos na sala, todas as crianças estavam sentadas, cada uma em uma cadeira, formando uma grande roda. A professora que supervisionava a sala naquele dia havia deixado tudo cuidadosamente organizado. 

 

Começamos a contar nossas histórias, e as crianças ouviam com bastante interesse e atenção.
Resolvi encerrar nossa atuação com a história dos irmãos Grimm “O mistério dos sapatos das princesas”. Conforme a história se desenrolava, as crianças foram se envolvendo com o suspense, os olhinhos brilhando.

 

No final, depois de tantas aventuras, contei a elas que o rei organizou uma festa de casamento maravilhosa, e todos dançaram lindas músicas até o amanhecer. Nesse momento coloquei para tocar uma valsa, usando o celular e uma caixinha de música. As crianças então me surpreenderam. 

 

Uma menina se levantou, puxou a colega que estava ao seu lado e as duas começaram a dançar.  Imediatamente outras crianças formaram pares e também se puseram a dançar ao som da valsa. 

 

Príncipes e princesas bailaram em suas roupas elegantes no imenso salão do castelo, finamente decorado. Lustres de cristal pendiam do teto, cortinas de veludo adornavam as imensas janelas que davam para o jardim. E a orquestra tocou a mais bela valsa de todos os tempos. Fez-se o encantamento.


Voluntária: Luciane Mazzola Figueiredo

Bernardo Lynch de Gregório

Bernardo é hors concours, nosso guru há muitos anos.

Ele veio para falar sobre mitologia grega. Amamos. Exímio contador de histórias, prende a atenção de todos com sua desenvoltura e bom humor, faz analogias, explica com detalhes surpreendentes fatos e tragédias que através dele ganham cor e sabor.

Gostamos tanto dele que o convidamos a voltar. Ele aceitou, e mais, como voluntário. Então, temos a honra e o prazer de ter sua companhia regularmente. Ele já nos falou sobre assuntos complicadíssimos e tão distintos como Matrix (o filme), Alice no País das Maravilhas (o livro), muita mitologia grega (que sempre ganha pitadas de mitologia romana), Vivência com Cristais, O Livro dos Mortos Tibetanos, Alquimia, Atlântida, e mais, muito mais. Sua cultura e simpatia, aliadas a facilidade de se expressar e didática natural, transformam cada encontro em um acontecimento.

Quando será o próximo? Qual o tema? Na casa de quem?

Voluntária: Ita Liberman

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